segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Lucas 16:8-9 na Canaã, a Bíblia Jovem





8 Quando soube disso, o patrão elogiou a prudência desse seu ex empregado, que era responsável por administrar para ele negócios que eram injustos. Esse pa­trão fez isso, pois os filhos deste mundo, quando é para obter vantagem para eles mesmos, são mais prudentes do que os filhos da luz.”
9 Eu lhes digo:
Usem as riquezas deste mundo injusto para conquistar amigos para vocês. Fa­çam isso com o objetivo de que, quando essas não mais existirem, eles sejam genero­sos com vocês e os recebam nas moradas eternas.”

Canaã. A Bíblia Jovem - Lucas 16:8-9






A Canaã é uma parafrase bíblica que tem como objetivo explicitar leituras que estão implícitas ou são sugeridas no texto bíblico original, tornando o entendimento do que está escrito na Bíblia não apenas mais fácil, mas também mais amplo.

Um exemplo que explica bem esse objetivo é o texto de Lucas 16:8-9 que foi transcrito anteriormente. No texto da Canaã fica bastante claro que o patrão elogiou a prudência de um ex empregado, que administrava para ele negócios desonestos.

Fica também bastante claro nesse texto parafraseado que esse patrão o elogiou, porque teria agido da mesma maneira que esse seu ex-empregado, se estivesse nas mesmas circunstâncias - ambos eram filhos deste mundo e ambos tinham o mesmo objetivo: obter lucro para si próprio.


Vale também notar que a Canaã nada acrescenta ao conteúdo informativo do texto bíblico original quando explicita que o empregado, antes de ser demitido, gerenciava para o seu ex-patrão negócios que eram injustos (pode-se ler: desonestos).

Em grego há um paralelismo semântico entre o genitivo "administrador da injustiça" (v. 8) e o genitivo "riquezas da injustiça" (v. 9). Vale notar que é por causa desse paralelismo que o primeiro genitivo deve ser compreendido como "o administrador de algo injusto", e não "o administrador que é injusto", como se lê em muitas traduções e paráfrases bíblicas (NVI; NTLH; ARC; CNBB; TNM; Jerusalém; etc.). 


Já o segundo genitivo deve (e pode) ser compreendido como "riquezas que provém da injustiça". Note-se que ambos os genitivos seriam objetivos (alguém que faz algo), e não subjetivos (alguém que é algo).

Cumpre explicar que o uso desse paralelismo de genitivos também prova que Lucas nao quis enfatizar, no verso 8, que o administrador era injusto (embora ele até talvez fosse). Se esse fosse seu desejo, ele teria usado não um par de genitivos, mas antes um par de adjetivos (administrador injusto; riquezas injustas), ou, numa outra opção, ele teria empregado o adjetivo injusto ao administrador, como fez no v. 10 com a palavra riquezas (lit.: mamon injusto). 


Vale por último destacar que nada há na parábola em questão que diga, de maneira direta, que o administrador foi honesto ou desonesto na gerência dos negócios de seu patrão e/ou na redução das dívidas dos devedores. O que há, na verdade, são apenas insinuações, que para serem tidas como verdadeiras dependem da explicitação de detalhes que o texto não revela.


   

Observações Adicionais:

(1) A ambiguidade que há no genitivo "riquezas da injustiça" não é danosa, pois toda a epícope na qual ela está incluída (vs. 1-11) deixa claro tanto que as riquezas deste mundo são em essência injustas (no Reino de Deus elas não mais existirão - v. 9), quanto que elas podem ser fruto da injustiça. Explicando: alguém que trabalha honestamente recebe o pagamento pelo seu trabalho. Esse dinheiro recebido é justo, embora o dinheiro em si mesmo seja produto de um mundo injusto.


(2) Note-se que o elogio do patrão ao seu ex empregado expressa que ele considerou muito astuta a atitude dele, e não necessariamente que ele a tenha apreciado (talvez a atitude de seu ex empregado o tenha até prejudicado).

(3) A Canaã é elaborada do texto da Versão Galileia, uma tradução bíblica feita a partir dos textos originais que tem como princípio tradutório a busca pela equivalência funcional intersinfrônica. O v. 8 foi traduzido da seguinte maneira nessa tradução: [...] E o senhor elogiou o administrador da injustiça, porque este agiu com prudência. Pois os filhos deste mundo são mais prudentes em benefício de si mesmos do que os filhos da luz. A propósito, em
http://bibliagalileia.blogspot.com/ há uma resposta bem detalhada à seguinte pergunta: Jesus teria elogiado uma conduta desonesta na Parábola do Administrador Prudente, narrada em Lucas 16:1-11?


(4) A conclusão após a parábola (Eu lhes digo:...) parece ter sido incluída por Lucas (ou pelo próprio Jesus) para eliminar a possibilidade de que alguém pudesse entender que teria havido na narrativa alegórica algum elogio de Jesus a condutas egoístas (e/ou desonestas) de filhos deste mundo.


(5) A parábola do Administrador Prudente (em algumas traduções: Administrador Desonesto) é considerada por muitos eruditos como problemática ou de difícil compreensão. Alguns eruditos chegaram até a afirmar - veja por exemplo Geza Vermes, O Autêntico Evangelho de Jesus, p. 193 - que ela não teria sido de autoria de Jesus, visto que nela haveria um elogio implícito a uma conduta desonesta. Note-se que tal tipo de leitura tem como principal causa traduções que apenas copiaram a maneira como a Vulgata Latina traduziu a sentença grega eis ten geneán ten euaton eisin (lit.: para a geração de si mesmos são), presente no v. 8.  Note-se que nem a Versão Galileia nem a Canaã procederam dessa maneira.

(6) O significado das abreviações citadas: NVI - Nova Versão internacional; NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; ARC - Almeida Revista e Corrigida; CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; TNM - Tradução do Novo Mundo.

(7) O relato não deixa claro se o administrador, citado na parábola, teria sido ou não injusto (leia-se: desonesto). Há três possibilidades verossímeis para explicar a diminuição feita por ele dos valores das dívidas: 1. ela seria apenas o recálculo dos débitos, sem juros; 2. ela seria a retirada da comissão que ele, administrador, teria direito legal; 3. ela faria parte de um acordo para o pagamento imediato dos débitos (nessa hipótese, o administrador teria ficado com todo o dinheiro que era devido ao seu patrão). Note-se, além disso, que o início da parábola (v. 1) diz que ele fora demitido porque desperdiçara os bens de seu patrão, e não porque os roubara (não foi usado em grego nem o verbo klepto - roubar, nem o verbo arpazo - saquear, mas sim diaskorpizo - dissipar, desperdiçar).

1 comentários:

Angélica Rodrigues disse...

Muito e bom fácil de entender ! A linguagem é atual e feita para que o leitor entenda. Está muito clara e acessível. Gostei muito...
Angélica
Goiânia - Goiás.

Postar um comentário