terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Canaã é uma paráfrase que explicita leituras

Seguir Jesus exige renúncia e convicção

25 E muita gente seguia Jesus. Ele, então, se virou para eles e lhes disse:
26 “Quem me segue, mas ama o seu pai, a sua mãe, a sua esposa, os seus filhos, os seus irmãos e irmãs, e até a sua própria vida, mais do que me ama, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não suportar levar a sua própria cruz e me seguir, não pode ser meu discípulo.
28 E lhes explicou:
“Quem dentre vocês, desejando construir uma torre, primeiro não se senta, calcula quanto vai gastar, para ver se realmente tem ou não dinheiro suficiente para conclui-la, 29 a fim de evitar que, depois de erguido o alicerce, não aconteça que lhe falte recursos financeiros para terminá-la, e então todos que a olhem pela metade não venham e façam piadinhas sobre quem a construiu, dizendo: 30 ‘Olha, que idiota! Começou a construir, mas não teve dinheiro para terminar a obra, pois não calculou bem quanto precisava’?”
31 E Jesus lhes contou ainda uma outra história:
“E qual é o rei que, indo lutar numa guerra contra um outro rei, primeiro não se senta e avalia se realmente dá para enfrentar, com dez mil soldados, o seu adversário que tem vinte mil? 32 Mas se esse rei concluir que não é capaz de vencer tal guerra, vai aproveitar que o outro rei ainda está distante, e vai lhe enviar uma delegação e lhe propor um acordo de paz.(1) 33 Acontece a mesma coisa com todos que queiram me seguir, pois quem não renuncia a todos os bens que possui não pode ser meu discípulo.
34 O sal é algo muito bom. Mas se ele perde a sua qualidade de sal, quem é que pode fazer com que ele volte a ser sal outra vez? 35 Ele não presta para mais nada, nem para o solo, nem para adubo, e então é jogado fora.
Quem puder entender, que entenda!” (2)



Muitas paráfrases parecem que têm vergonha de ser paráfrases, e perdem assim uma ótima oportunidade de colaborar com os seus leitores na construção de leituras verossímeis dos textos bíblicos. Isso não acontece com a Canaã, a Bíblia Jovem. Ela não tem vergonha de ser uma paráfrase,(3) e assume, ao construir e explicitar leituras que estavam como que escondidas por detrás da literalidade do texto bíblico, a tarefa que uma paráfrase deve assumir, ajudando os seus leitores ou ouvintes a perceberem detalhes importantes, que não apenas facilitam o entendimento, mas ampliam seus horizontes interpretativos. (4)

Esse é o caso da seção, transcrita anteriormente, extraída de Lucas 14:25-35. Fica nítido, no texto parafraseado transcrito, que as duas parábolas que concluem essa epícope são uma explicação do seu primeiro trecho – quem pode ser meu discípulo? De fato, o acréscimo “e lhes explicou”, que só seria desejável numa paráfrase, deixa claro, no início do v. 28, que o que vem a seguir tem como objetivo tornar ainda mais claro o que foi dito antes, ou mesmo acrescentar informações que forneçam mais detalhes e conclusões, mesmo que implícitas, acerca do que foi abordado. (5)

Fica, assim, evidente, quando se escuta ou se lê essa epícope parafraseada na Canaã, que Jesus, ao narrar essas duas parábolas autoexplicativas logo depois de suas afirmações veementes do quanto segui-lo exigia renúncia e sacrifícios, tinha como propósito levar seus interlocutores a perceberem que ser seu discípulo requisitava certos cuidados e alguma preparação, e alguém que o fizesse motivado apenas por um sentimentalismo momentâneo, tolo e inconsequente, iria “quebrar a cara” diante das dificuldades com as quais inevitavelmente iria se deparar.

É nesse enfoque que o exemplo de alguém que constrói uma torre, sem ter recursos financeiros suficientes para arcar com os custos que essa construção requer, e o exemplo de um rei que envia uma delegação a um outro rei para lhe propor um acordo de paz, pois sabia que não conseguiria vencê-lo numa guerra iminente, embora, à primeira vista, possam parecer contraditórios (no primeiro o tema é a imprudência; e no segundo, a prudência), não têm nada de antagônicos, visto que cooperam um com o outro para reforçar a ideia de planejamento e preparação que antecede alguma decisão importante.(5)

Conclui-se, dessa maneira, que a lição implícita em ambas essas histórias é a de que só se deve “executar uma ação” (alegoricamente: seguir Jesus), se isso for feito com convicção e tendo plena consciência do que se está fazendo, o que requer estratégia e preparação. Além disso, fica implícito também nessas duas histórias que nos casos em que as condições sejam desfavoráveis ao pleno êxito de uma determinada ação, o melhor a fazer, não é ficar omisso ou desistir, mas mudar de estratégia e agir diferente – o rei preferiu assinar um acordo de paz a sair perdedor numa guerra.



Notas Adicionais

(1) Embora sugira uma guerra iminente, o relato deixa claro que a guerra ainda não havia se iniciado. Note-se que as três ações prudentes do rei que tinha dez mil homens são destacadas: 1. se senta e avalia (supõe-se: com os seus generais) suas reais condições de vitória num possível confronto militar com um outro rei. 2. percebendo que provavelmente perderia tal confronto, entende que é melhor assinar um acordo de paz com o outro rei, evitando um conflito e, consequentemente, a provável derrota. 3. percebendo que o outro rei está distante, envia-lhe uma delegação para negociar um acordo de paz, antecipando-se a qualquer eventual ação hostil da parte desse.

(2) Literalmente: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

(3) Fica nítido a um leitor acostumado a ler ou ouvir as várias versões bíblicas que há em língua portuguesa, que a Canaã reescreve a Bíblia de forma inédita, não apenas no que diz respeito às interferências que faz no conteúdo informativo do texto bíblico de partida, mas também na maneira “revolucionária” como o reelabora. Isso fica evidente com o uso, no v. 29, do termo “piadinha”, na primeira parábola transcrita. Tal palavra jamais apareceria numa Bíblia tradicional, por exemplo. A quem poderia entender que tal maneira de se expressar não condiz com a Bíblia, e por isso não deveria ser usada numa paráfrase desse importantíssimo livro sagrado por ferir sua reverência e sua sacralidade, o Comitê de Paráfrase Canaã contra-argumenta afirmando que tal palavra não tem nada de ofensiva e, contextualizada, apenas enfatiza o deboche dos que olhavam a torre inacabada.

(4) Dois outros fatos demonstram que a Canaã, a Bíblia Jovem, não tem vergonha de ser uma paráfrase, mas antes assume esse seu papel, com convicção e solidez. 1. A maneira coloquial, descontraída, emotiva e moderna como ela reescreve o texto bíblico, o que não apenas facilita o seu entendimento, mas o amplia e o torna agradável de ler e de ouvir. 2. A inclusão de acréscimos que apenas explicitam leituras, sem acrescentar nenhuma informação que não seja sugerida ou evidenciada no texto bíblico original, e sem desrespeitar o seu teor reverente e sagrado.

(5) Há no v. 28, no texto grego, a conjunção “gar” – portanto – que corrobora com a leitura de que as duas parábolas autoexplicativas são como que uma conclusão do que foi dito anteriormente. Note-se que a Canaã preferiu expô-las como uma explicação.


(6) De fato, se fossem incluídos títulos a essas parábolas, poderíamos nomear a primeira como “A Prudência em Construir” e a segunda como “A Prudência em Planejar”.

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